sexta-feira, 10 de junho de 2011

O ESTAMPIDO E A COMPAIXÃO


Era cedo da manhã quando nos preparávamos para tomar o café. O cachorro uivava e chorava de dor no pequeno galpão do fundo da casa. Éramos crianças e tínhamos apego aquele cão desde quando chegou em nossa casa. Não tinha raça nem beleza. Era apenas um cão com sua natureza e seu afeto.

A rua de nossa casa era bastante movimentada e para os animais, tais ruas significam a própria morte. Até o dia em que o cão encontrou o portão aberto e foi perscrutar a rua. Foi em busca de outros cheiros e experimentou a liberdade que a rua lhe proporcionava. Correu desvairadamente rua afora até o momento em que um caminhão passou por cima da sua parte traseira.

Reconhecemos seus gritos e sua dor e lá fomos nós buscá-lo para dentro de casa. Trouxemos o cachorro no colo e o levamos para o galpão onde o acondicionamos da melhor maneira possível para que sua dor fosse amenizada. A metade para baixo do cachorro estava quebrada. Condenado a não mais andar, ele nos olhava com um olhar de dor e medo. Devolvemos a ele nosso olhar de compaixão e tristeza.

Resgatei esta história de minha memória lendo o conto “ Baleia “ de Graciliano Ramos. No conto, Baleia é uma cadela doente que Fabiano deseja matar para aliviar a sua dor. Para matá-la, Fabiano carrega a espingarda com bastante pólvora e após carregá-la, mira-a e acerta sua parte traseira inutilizando sua perna. Baleia foge com o que sobrou de seu corpo e se esconde de Fabiano para usufruir um pouco mais da sua vida.

A Baleia da minha infância teve destino similar a do conto de Graciliano. Tal como escrevi no inicio deste texto, quando nos preparávamos para tomar o café, o vizinho tocou a campainha e pediu autorização para sacrificar o desafortunado cãozinho. Assim como Baleia era considerado um membro da família, o pequeno cão também era um membro de nossa família. Um membro que chorava e uivava dia e noite pela dor.

O vizinho então o levou para sua casa para sacrificá-lo. Ainda deu para ouvirmos seus últimos gemidos de dor até que houve silencio.

Lembro de um estampido de revólver que varou o ar levando embora aquele cão. Choramos e começamos a aprender a partir dali o transitório de nossas vidas. Que o amor se esvai, que o olhar se esvai, que a vida se esvai. Que perdura a memória e os fatos guardados em silencio dentro da gente até quando durar a nossa memória e revivermos na memória de outra pessoa.

Livingston Streck

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