sábado, 27 de agosto de 2011

A SÍNDROME DE D. QUIXOTE I


A inesgotável interpretação e releitura de D. Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes Saavedra é atualíssimo mesmo tendo sido publicado em 1605. O tempo é capaz de mudar o homem? Penso que não. Somos ante-diluvianos, babilônicos, egipcios e hebreus. Tal como o poema “ As causas “ de Borges, foi preciso, antes de nós, a torre de babel e a soberba.

D. Quixote é o personagem que se auto denominou um cavaleiro imbuido de trazer justiça e enfrentar os inimigos que reconhecesse como tal. Despiu-se da sua lucidez após noites em claro lendo tudo o que podia sobre estórias de cavalarias, fantasias, contendas, batalhas e desafios. No livro o desvairado cavaleiro acredita naquilo que ele imaginou e se tornou. Cada detalhe de sua indumentária é real, adequada, segura e protetiva. A loucura o livra do medo.

Mas não é do personagem de Cervantes que desejo retratar neste texto. Desejo sim trazer a tona o D. Quixote que habita dentro de cada um de nós.

Lembro algum tempo atrás que determinado cidadão frequentou a alta sociedade se auto denominando proprietário de conhecida empresa aérea de nosso país. Foi fotografado, entrevistado e recebido com bastante atenção nos lugares que frequentava. Um D. Quixote megalônamo dos nossos tempos?

Há também os D. Quixotes do cartão de crédito e do cheque especial. É interessante observar que o sistema financeiro faz brotar dentro de nós os D. Quixotes do dinheiro invisível. Gastamos o que não temos e o que não nos pertence apesar da bondade dos bancos em nos conceder quantias vultosas e atrativas.

Me chama atenção também os D. Quixotes da auto imagem ou mais precisamente os que sofrem de transtornos dismórficos que é a idéia errada sobre a imagem de sí mesma. O culto ao corpo e a exacerbação do belo tem produzido D. Quixotes em massa no mundo. Conforme recente estatística o Brasil é o segundo país do mundo em maior quantidade de cirurgias plásticas sendo que metade delas puramente estéticas.
As pessoas não se reconhecem mais no espelho, não se gostam e não se aceitam. Há um padrão e uma meta a ser atingida. Temos que ser refeitos. Temos que ser os D. Quixotes da indústria da beleza, da cosmetologia e do bisturí.

Há os D. Quixotes da fé que arrebanham milhares de pessoas prometendo um céu de concreto aos seus seguidores. Montam em seus Rocinantes em busca de inimigos invisíveis dispostos a salvar e libertar as pessoas de seus “ inevitáveis destinos. “ Aumentam consideravelmente seus adeptos-correntistas que por vezes não sabem se entram num banco ou numa igreja.

Qual o D. Quixote que nos habita? Qual a realidade que abandonamos para vestir a loucura do personagem de Cervantes afim de criarmos uma vida paralela nestes tempos de redes sociais? Vemos o nosso próprio eu com sua essência ou estamos amalgamados dentro de um espelho disforme do qual não nos reconhecemos mais? São questionamentos que o clássico de Miguel de Cervantes me provoca e que me faz voltar ao assunto em outro texto.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A PEDRA ETERNA


Um oceano
Sem porto
Me navega
O peito
No profundo
Turvo
De mim,

Me bóiam
Olhos tristes
Na correnteza
De dias
E dias,

O verde
Das folhas
Que balançam
O ar
Caem secas
No duro chão
Acolhedor,

Rios de lágrimas
Me sulcam
A face
Em busca
De novos
Atalhos,

O sorriso
É um sol
Entre nuvens
Espessas,

Na boca
Guardado
O choro
Para outras
Tristezas,

O amor
É uma brisa
Que trás
Do outro lado
Ventanias,

É lava
Que incandesce
Mas também
É ártico,

O amor
É profundo,
É soturno
Mas se embrenha
Por vezes
Na superfície
Da pele,

Um oceano
Sem porto
Me navega
O peito
No profundo
Turvo
De mim,

A pedra
Jogada
Na água parada
Não fere
Mas estilhaça
As coisas
Ali refletidas,

Talvez um sol
Descido
Do céu
Pairado
Em singeleza
Na pele da água,

A palavra
É uma pedra
Arremessada
Que o peito
Não apara,

A palavra
É uma pedra
Que vara
O tempo,

A palavra
Não se esquece
Por isso eterna
Uma eterna
Pedra
Que nasce
Na boca
E provoca
o silêncio
Da lágrima
Do olhar.

Livingston Streck – 16/08/2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Poema baseado no texto “ Para viver um grande amor “ de Vinicius de Moraes

É preciso ler
Um poema de Vinícius
Embrenhar-se no livro
De Cantares
Escrever um poema
Apaixonado
Para viver um grande amor

É preciso uma janela
E também uma saudade
Pois só o grande amor
Encerra no quadrilátero
Uma lágrima de verdade

Para ter um grande amor
É preciso simplicidade
É ver no desalinho
A perfeita beleza do amor
O acordar do corpo
Da pessoa amada
Como o desabrochar
Da rosa
Ao primeiro raio de sol

Para viver um grande amor
É preciso uma surpresa diária
Um toque inesperado
No ombro
Um abraço de supetão
Os beijos roubados
Nunca programados
Para viver um grande amor

É preciso espreitar o outro
No mínimo gesto
E movimento
É descobrir um pequeno
Detalhe
Um novo sulco na boca
Uma pinta escondida
No corpo
É decifrar o suspiro
E conversar com a respiração
Do outro
Para viver um grande amor

Para viver um grande amor
É preciso dizer
A ele ou a ela
Que hoje foi escolhido
O dia nacional
Dele ou dela
Que foi decretado feriado
Para viver um grande amor

É preciso que os olhos se encontrem
E que os beijos sejam demorados
Que cheguem flores
E o café seja dado na cama
Para viver um grande amor
É preciso que se doe
Por inteiro

Para viver um grande amor
É preciso
Apaixonar-se todo dia
É fazer da pessoa amada
O primeiro namorado
A primeira namorada
É fazer de todo dia
Sempre o dia primeiro.

Livingston Streck

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O ESTAMPIDO E A COMPAIXÃO


Era cedo da manhã quando nos preparávamos para tomar o café. O cachorro uivava e chorava de dor no pequeno galpão do fundo da casa. Éramos crianças e tínhamos apego aquele cão desde quando chegou em nossa casa. Não tinha raça nem beleza. Era apenas um cão com sua natureza e seu afeto.

A rua de nossa casa era bastante movimentada e para os animais, tais ruas significam a própria morte. Até o dia em que o cão encontrou o portão aberto e foi perscrutar a rua. Foi em busca de outros cheiros e experimentou a liberdade que a rua lhe proporcionava. Correu desvairadamente rua afora até o momento em que um caminhão passou por cima da sua parte traseira.

Reconhecemos seus gritos e sua dor e lá fomos nós buscá-lo para dentro de casa. Trouxemos o cachorro no colo e o levamos para o galpão onde o acondicionamos da melhor maneira possível para que sua dor fosse amenizada. A metade para baixo do cachorro estava quebrada. Condenado a não mais andar, ele nos olhava com um olhar de dor e medo. Devolvemos a ele nosso olhar de compaixão e tristeza.

Resgatei esta história de minha memória lendo o conto “ Baleia “ de Graciliano Ramos. No conto, Baleia é uma cadela doente que Fabiano deseja matar para aliviar a sua dor. Para matá-la, Fabiano carrega a espingarda com bastante pólvora e após carregá-la, mira-a e acerta sua parte traseira inutilizando sua perna. Baleia foge com o que sobrou de seu corpo e se esconde de Fabiano para usufruir um pouco mais da sua vida.

A Baleia da minha infância teve destino similar a do conto de Graciliano. Tal como escrevi no inicio deste texto, quando nos preparávamos para tomar o café, o vizinho tocou a campainha e pediu autorização para sacrificar o desafortunado cãozinho. Assim como Baleia era considerado um membro da família, o pequeno cão também era um membro de nossa família. Um membro que chorava e uivava dia e noite pela dor.

O vizinho então o levou para sua casa para sacrificá-lo. Ainda deu para ouvirmos seus últimos gemidos de dor até que houve silencio.

Lembro de um estampido de revólver que varou o ar levando embora aquele cão. Choramos e começamos a aprender a partir dali o transitório de nossas vidas. Que o amor se esvai, que o olhar se esvai, que a vida se esvai. Que perdura a memória e os fatos guardados em silencio dentro da gente até quando durar a nossa memória e revivermos na memória de outra pessoa.

Livingston Streck

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A MENINA


A casa era feia com aspecto de abandonada mas ela morava lá. Os anos sulcaram sua face profundamente mas seus olhos mantinham um sorriso e um brilho próprios. Parecia que a solidão não a incomodava. Ninguém a visitava exceto a menina da casa 18.

Toda manhã antes de ir para a escola a menina deixava uma flor, uma maça, um biscoito, qualquer coisa que pudesse faze-la feliz. A menina era de poucas palavras. Tinha apenas 12 anos mas já ostentava tamanha compaixão.

A idosa abria o portãozinho velho de madeira suspenso apenas na parte de cima. Ela abraçava a menina com afago e carinho e recebia com sorriso o presente do dia. Havia entre elas uma cumplicidade tamanha que apenas o olhar era suficiente para dizer e ouvir.

Um dia a idosa cochichou bem pertinho do seu ouvido dizendo: alguém na escola faz seu coraçãozinho bater mais forte? A menina ruborizou a face e olhando para baixo acenou com a cabeça que sim. Faz bem meu anjo,disse a velhinha, pois o amor é o único remédio que nos mantém vivos. Aproveite e ame com toda sua vida, seu corpo e sua alma. Doe-se com toda a bondade que tens da mesma forma que és bondosa comigo. Quando tiveres seus filhos eles irão fazer o que fazes comigo. Plante essa bondade no
coração deles.

Então a menina perguntou para a idosa: mas, você tem filhos? A pergunta a pegou desprevenida pois não esperava ouvir essa particularidade de sua vida. Uma lágrima furtiva rolou de sua face e de repente o choro tomou conta dos seus olhos.

Você é muito jovem para entender essas coisas mas tive sim uma menina igual e tão bonita quanto você. Quando ela nasceu não pude criá-la e tê-la comigo então acabei dando para uma família que deu todo o carinho e amor. A única condição que impus era poder morar perto da família para a ver crescendo . Eles aceitaram e desde então acompanhei o crescimento dela ao longe sem que ela soubesse que era minha filha. A vi todos os dias como você vê a mim também.

E como é ver sua filha e não poder dizer nada? Disse a menina. Dói muito até hoje pois a vejo sempre. Mas onde ela mora? Replicou ela. Mora bem perto daqui, bem pertinho.
Vá para a escola meu anjinho. Você está atrasada pois conversamos muito hoje. A menina foi para a escola triste e encucada com aquele mistério.

No dia seguinte ela apanhou uma flor para levar a idosa, como de costume, quando de repente se deparou com um movimento em frente a casa dela. Uma fita amarela isolava a entrada da casa e um carro do IML estava estacionado a porta da casa. De dentro os homens retiravam a idosa inerte e silenciosa sem saber que a menina estava lá para lhe deixar uma flor.

Livingston Streck

quarta-feira, 18 de maio de 2011

NUVENS E COISAS

Preciso falar
Com meu silencio
Nestas noites frias
De fantasmas esculpidos,
Os desejos todos
Encolhidos
No canto da memória,
Uma doce canção
Empareda o coração
No peito
Só,
As nuvens
Brincam de coisas
No céu azul
De silêncio
E não sabem
De nós
Nem da lágrima
Dolorosa
Que cai
Na noite,
A palavra
O último refúgio
Da solidão
De um homem
Que ainda ouve
O grito sufocante
Do peito,
O deslize
De pensar
Que há sempre
Um amanhã
Um amanhã
De nuvens
Que foram embora
E que não voltam
Mais
Para virar coisas
No céu
De silêncio
E solidão.

Livingston Streck

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O piano, a pedra e a redenção


Lembro subitamente de dois filmes que assisti onde o piano é o grande protagonista de ambos os filmes. O primeiro filme chama-se “ O piano “ de Jane Campion e o segundo “ O pianista “ de Roman Polanski.

“ O piano “ me sensibilizou pela ligação do instrumento com a mulher que possuía uma deficiência de comunicação e passou a usar a música para interagir. Como a música é um meio de comunicação pouco entendida, no filme, ela sofre perseguição do seu marido por não entender a necessidade de fazer do piano o seu prolongamento. O filme tem um desdobramento passional, lírico e redentor.

“O pianista” retrata um personagem judeu que habita o gueto de Varsóvia e sofre a perseguição dos nazistas juntamente com sua família. Na fuga, o personagem, um brilhante pianista, esconde-se em meio a uma casa abandonada e de repente é flagrado por um soldado alemão que o indaga e deseja saber quem ele é, o que faz e por que está se escondendo. O pianista então, já debilitado, com barba por fazer, sujo e sem comer há dias, é levado pelo soldado nazista a um compartimento que havia um piano e diz: toque alguma coisa. O piano o redime, a música liga soldado e fugitivo.

No Brasil temos um grande pianista chamado Nelson Freire. Em tempo foi produzido pelo documentarista João Moreira Salles um belíssimo documentário sobre sua vida que não me canso de assistir. Nelson Freire está entre os cinco maiores pianistas de todos os tempos.

No documentário vemos a intimidade quase hermética desse pianista que se comunica mais pelos dedos do que pela própria boca. Um homem de silêncios, de andar nervoso e uma introspecção profunda. Em determinado momento, no documentário, Nelson se recusa a ensaiar em um piano por não ter ido com a cara dele. “ Não gosto dele não adianta, “ disse ele.

Nelson executando o concerto nº 2 de Brahms é um momento de êxtase ouvirmos e vermos seus dedos deslizando sobre o teclado. A certa altura seus dedos parecem não tocar o piano e a música se auto executa como um corpo independente.

Se Nelson estivesse numa ilha com apenas uma pedra, creio que seus dedos tirariam da pedra esse concerto de Brahms. E a música por vezes não pode ser a própria pedra? Schopenhauer afirmou certa vez que ” a arquitetura é música congelada.”

No filme o piano, a personagem faz do instrumento um órgão do próprio corpo e encontra uma forma de viver e amar. O piano a redime. Também ocorre no filme O pianista a redenção do personagem. O piano salva sua vida.

Pode o piano salvar o mundo? Pode a música resgatar o homem da crueldade e da obscuridade? Leio reportagem que os Estados Unidos já gastou mais de 10 trilhões de dólares em uma década combatendo o terrorismo. Num devaneio imagino cada dólar sendo gasto com música e imagino esse mundo infestado de pianos. No lugar de metralhadoras e tanques seria bem melhor pianos e para cada piano quem sabe um Nelson Freire para nos resgatar e nos redimir das trevas que entrincheira mais o homem nessa busca desenfreada do vazio e do nada.

Livingston Streck