segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Parecer sobre o atual cenário político brasileiro

Não há muito segredo para se explicar as condições, a forma e a cultura de um pais ou continente. No nascedouro de um pais já são pinçadas as condições que vão nortear e formar o que será a vida em sua riqueza ou mazela.

Em recente reportagem à revista Veja de 16 de setembro de 2009, a mesma traçou um
paralelo entre o crescimento dos Estados Unidos e do atraso do Brasil. Enquanto lá a democracia se unia ao capitalismo para formar uma sociedade onde a riqueza era distribuída com mais homogeneidade, aqui vivíamos de explorar, concentrar e roubar nossa riqueza.

Hoje, apesar do aparente cenário político e econômico se apresentar estável, temos graves problemas que certamente comprometerá muito o futuro do país. Temos uma classe política ainda muito arcaica, pouco comprometida com o todo do país, preocupada em defender pequenos interesses corporativistas que não somam as grandes questões a serem resolvidas.

O nível de analfabetismo é altíssimo, os juros cobrados da população são escorchantes, a carga tributária hoje em torno de 38% é a mais alta do planeta, onerando terrivelmente a produção e o consumo da população, mantendo grande parcela do povo em níveis abaixo da linha da pobreza.

Temos um Presidente atual que teve o mérito de manter uma política econômica construída por governo anterior em que a inflação foi debelada senão mantida em nível mais humano mas por outro lado governa o país demagogicamente prometendo e oferecendo aos mais pobres aquilo que lhes é de direito ou o que a própria população tira do seu rendimento que são as ditas bolsas família, renda mínima e outros paliativos em que um país adiantado já suplantou de há muito.

Por outro lado temos um Congresso Nacional refém ainda de um coronelismo antiquado exercido pelo Sr. José Sarney, Presidente do Senado Federal, que é o retrato do atraso político e social do país e que congressistas ora se rendem a esta figura espúria do atraso.

A mistura destes ingredientes que deram a cara de nosso país, de um lado um povo massificado usado como manobra, sem educação, sem uma identidade de crescimento aliado a democracia, sem um espírito capitalista nos moldes da formação do espírito capitalista cristão do que Max Webber expôs em seu livro, o Espírito do Capitalismo, temos um país com os dois pés no atraso.

Se ainda conseguimos atingir alguma notoriedade ou crescimento econômico neste mundo globalizado, é graças ao espírito de luta e empreendedorismo de muitos compatriotas nossos que a despeito de todas as dificuldades impostas pelo estado, conseguem sobreviver muitas vezes sonegando e burlando os impostos que o governo impõe a todos e pela criatividade diferenciada oriunda talvez de nossa miscigenação.

Temos que deixar de nos iludir com as fantasias que os governantes ainda tentam impingir à sociedade. A questão do pré-sal a meu ver é o maior estelionato político já presenciado ultimamente. Querem vender uma mina de ouro a qual nem sabem ou não tem certeza alguma de que ela poderá ser benéfica futuramente para o país. Há pouco estudo sobre o assunto e o país não tem tecnologia suficiente para extrair o dito petróleo. É mais uma manobra política para eleger um candidato da situação para que a máquina seja mantida no poder pelo maior tempo possível. São estas coisas que o povo deve estar preparado e orientado para refutar através dos meios legais como as urnas. A cada estelionato eleitoral, o voto nas urnas deve ser exercido com o intuito de penalizar os estelionatários do governo.

Um país que não tenha como principal preocupação a educação, quer seja através de seus governantes ou através do seu povo, é um país fadado à escravidão, às trevas e a pobreza tanto material quanto moral. Enquanto não se exigir bases e princípios que se institua a educação como base primeira de uma reforma profunda na sociedade, pré-sais, bolsas famílias e outras empulhações, o povo viverá nesta eterna esperança de um país melhor vivendo de sonhos e de circo.


Livingston Streck
Bacharel em Direito

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

IGREJA: A IMUNIDADE TRIBUTÁRIA E O DÍZIMO INFLACIONADO

“ Trazei todos os dízimos ao tesouro do templo, para que haja mantimento na minha casa, e provai-me nisto, diz o Senhor dos exércitos, e vede se não abrireis as janelas do céu e não derramarei sobre vós bençãos, que não conseguireis guardá-las.” Malaquias 3:10


No dia 12 de agosto os principais jornais televisivos do país, mais especificamente a TV Globo, trouxe reportagem sobre denúncia apresentado pelo Ministério Público Paulista, referente a lavagem de dinheiro e formação de quadrilha onde o líder da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo é apontado como seu principal mentor.

Na reportagem, vimos a metodologia agressiva dos seus pastores pedindo e arrecadando cifras enormes que variavam de R$ 10.000,00 a R$ 100.000,00 onde bens móveis e imóveis eram solicitados aos gritos no intuito de provocar nos membros a mais completa prodigalidade sem chance alguma para o terreno da razão.

O intuito deste texto é apresentar de forma suscinta o que diz a lei sobre a relação da igreja com os meios de comunicação, a imunidade tributária concedida pela Constituição Federal, e o possível crime de estelionato na arrecadação das ofertas.

É sabido que as igrejas tem proteção Constitucional no que se refere à liturgia, forma dos cultos, meios e locais para se expressar, etc. No art. 5 inc. VI da Constituição Federal lê-se o seguinte:

“ É in violável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na forma da lei ,a proteção aos locais de culto e suas liturgias.”

Depreende-se do referido artigo que a igreja pode usufruir de todos os meios de comunicação na forma da lei, inclusive a televisão, tanto a TV aberta que é a concessão do Estado como a TV fechada que comumente dizemos TV paga.

Em que momento então pode ocorrer a ilegalidade de determinada igreja no uso de uma concessão pública? No art. 223 da Constituição Federal encontramos o seguinte texto:

“ Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de radiofusão sonora e de sons e imagens, observando o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.”

Se buscarmos no próprio texto da Constituição no art. 19 caput e inc. I veremos a vedação do Estado no que se refere ao relacionamento do mesmo com as igrejas, texto que se contrapõe ao artigo 223 citado acima onde se lê:

“ Art. 19: É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
Inc. I: estabelecer cultos religiosos ou igrejas; subvencioná-los; embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”

Respondendo a questão suscitada acima, da ilegalidade da igreja em relação ao uso da concessão pública, está claro que igreja alguma pode obter a concessão de um canal de TV e fazer dela uso comercial em concorrência com as demais. Se isto ocorrer, o estado está passando por cima do texto Constitucional privilegiando uma igreja em detrimento de outras e corroborando uma concorrência desleal onde uma igreja pode arrecadar grande volume de dinheiro e transferir para interesses nada ligado ao objetivo primordial da igreja. A igreja não pode estabelecer à margem da lei, aquilo que extrapola as atividades fim da liturgia e dos cultos. O legislador, ao criar os artigos Constitucionais citados, procurou exatamente evitar a comercialização da fé.

Em importante artigo escrito pelo Doutor Ericsom Meister Scorsim, mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná e Doutor na Universidade de São Paulo, sobre o tema em questão extraio o seguinte parágrafo:

“ Outro sério problema consiste no desvio dos recursos dos fiéis para o enriquecimento privado dos gestores e controladores da igreja. Se configurada a coação psicológica para forçar a arrecadação de recursos há séria ilegalidade. Uma situação legítima é a expressão e difusão da fé, outra totalmente diferente é a exploração da fé do público. Os administradores que eventualmente pratiquem abusos na gestão da instituição devem ser punidos. Ora, se a TV pertence à igreja, então, obviamente, a programação deve ser compatível com a natureza religiosa. Ou seja, deve estar voltada ao ensino da religião, da cultura, à informação e ao culto. O valor central a ser defendido é o princípio da dignidade humana. Ademais, as televisões religiosas não escapam da vinculação aos princípios constitucionais catalogados no art. 221 da Constituição.” Igrejas na televisão: acesso e limites. Da fé no mercado ao mercado da fé? Texto extraído do Jus Navigandihttp://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=13460

Outra questão a ser abordada seriamente aqui é a imunidade tributária a que as igrejas tem prerrogativa. Citando ainda a Constituição Federal, o legislador estabeleceu, visando preservar o alto serviço social que a igreja presta em nossa sociedade, prover em contrapartida, a isenção relativa a alguns tributos compensando assim os serviços prestados pela igreja naquilo que o Estado dividiu com os entes religiosos a saber o fim social.

Estabelece a Constituição Federal em seu art. 150 caput, inc. II, inc. VI alínea b e parágrafo 4 o seguinte:

“ Art. 150: Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Munípios:

Inc. II: instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos;
Inc. VI: instituir impostos sobre:

alínea b: templos de qualquer culto

Parágrafo 4: As vedações expressas no inciso VI, alínea b e c, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nela mencionadas.

O texto Constitucional é bem claro no que diz respeito a insenção tributária e a imunidade. Primeiramente o texto estabelece que não deve existir um contribuinte em igualdade com outro e receber tratamento diferenciado. Determinada igreja recebe a imunidade tributária mas faz uso comercial da arrecadação do dinheiro dos membros investindo em bens móveis, imóveis, adquire canal de TV e comercializa sua programação completamente fora do seu propósito religioso. Estamos diante de uma ilegalidade Constitucional.

É claro o texto também quando diz aonde deve recair a imunidade dos tributos. Estabelece a lei que será vedado a cobrança somente no patrimonio, na renda e nos serviços relacionados com as finalidades essenciais da igreja. Portanto, não pode a igreja desvirtuar tal benefício em prol de coisas que não estejam estritamente ligados ao objetivo e propósito de sua existência. O de levar a fé e o conforto espiritual dentro do seu templo. A igreja não está impedida de usar nenhum meio de comunicação desde que seu uso seja estritamento espiritual e de acordo com a sua filosofia e seu propósito como igreja. Cito ainda o Doutor Ericsom Meister Scorsim que diz em outro parágrafo:

“A meu ver, a lei não proíbe que as igrejas acessem a atividade de televisão. É proibido, isto sim, que as organizações religiosas sejam proprietárias de emissoras de televisão. Reprise-se que não é admissível que elas possuam emissoras comerciais, isto é, com finalidades lucrativas. A igreja não é um negócio, nem um instrumento para o enriquecimento privado. Também, não pode servir como plataforma eleitoral para candidatos a cargos públicos. Se uma determinada organização com fins religiosos mantiver uma televisão comercial haverá desvio de finalidade.” Texto extraído do Jus Navigandi http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=13460

Concluindo o texto gostaria ainda de trazer a lume algumas práticas de arrecadação do dinheiro dos fiéis que podem estar à margem da lei. Na reportagem citada, vi bispos e pastores de determinada igreja praticamente leiloando a fé dos membros pedindo altas cifras para a igreja. É bom lembrar o texto bíblico citado na abertura do texto onde está embasado a cobrança do dizímo dos fiéis onde Deus estabeleceu a matemática da cobrança dos rendimentos. Infelizmente algumas denominações se afastam do critério bíblico inflacionando o dízimo e recaem muitas vezes na prática do crime de estelionato conforme está disposto em nosso Código Penal. Diz o texto penal em seu art. 171:

“ Obter, para sí ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício,ardil ou qualquer outro meio fraudulento:

Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos e multa.

Muitas pessoas se deixam levar pela promessa de recursos abundantes mediante a doação de bens móveis, imóveis e dinheiro querendo desta forma que Deus triplique sua vida material. Não há embasamento bíblico para isto e se pessoas são instadas a fazerem isso mediante grande apelo psicológico, técnicas de oratória e irresistivel emoção pode-se estar diante do crime de estelionato.

Livingston Santos Streck
( Bacharel em Direito )

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

PÃO, CIRCO E BOLSA FAMÍLIA

Habitamos um país que não nos pertence. Apesar da conquista do sistema republicano e a sua posterior continuidade referendada pelo povo brasileira nas urnas, ainda estamos longe de possuirmos nosso quinhão da riqueza brasileira.

Posso afirmar que nosso sistema representativo, através do Congresso Nacional, Senado e Câmara Federal e o Presidente da República, são meros agentes ( atores ), em cima de um palco onde nós, platéia, pagamos para observarmos suas atuações sem termos acesso ao script e nenhuma influência no roteiro da peça. Atores e espectadores separados por uma cortina complexa, cultural, hipócrita, servil, escravagista e cruel.

Alguns dados nos dão a mostra do retrato cruel do nosso país. A maior carga tributária do planeta nos pertence com seus 38 % em relação ao PIB. A China, por sua vez, detém 16% e a Índia 17%. A China que, paradoxalmente ainda não conhece etimologicamente os direitos humanos pois prende, condena e executa seus criminosos em uma semana, parece-nos, com seus números, não ter uma sanha sobre o dinheiro da sua população mantendo-se numa média equivalente a outros países com não menos problemas.

O governo nos toma quase 40% do produto total do país. Trabalhamos durante 4 meses somente para abastecermos os cofres do governo. Elegemos nossos representantes, pagamos seus salários para que eles nos dêem um retorno satisfatório dos 38% arrecadados.

Éramos para ter nossos problemas resolvidos. O sistema de saúde era para ser o melhor do mundo. O sistema educacional era para estar produzindo astronautas. Ninguém, ao meu ver, com 38% do PIB nos cofres do governo, deveria estar dormindo na rua.

Os problemas do nosso país são aterradores. O vírus de uma gripe estrangeira vai ceifar a vida de milhares de pessoas por que não temos a capacidade de lavarmos as mãos adequadamente ou de por em prática uma assepsia arcaica básica. O fosso social da pirâmide se alonga e continuará a produzir o seu caldo de sangue e violência. Um país embotado de circo e menos pão, se permite à subserviência e a tirania de pseudos-representantes que fingem gerir os bens e a riqueza dos seus representados. Algo está errado por aqui.

Quando um presidente se orgulha de criar e repartir o bolsa família, ele deveria saber que em Roma, os tiranos já distribuíam o seu bolsa família. Lá, distribuía-se o quarto de trigo e o sesteiro de vinho chamado de sestércio ( bolsa família romana ).

Um povo bestializado não percebe que o bolsa família nada mais é do que a devolução do dinheiro do próprio povo. O governo, o Lula e o Congresso não são emissores de uma moeda especial distribuído a uma ampla parcela famélica da sociedade. Esta generosidade é proveniente do bolso de cada um de nós. O bolsa família nasce do trabalho e do suor do rosto de cada cidadão brasileiro. Não há bondade nem generosidade nos atos oficiais. Há obrigação de se gerir tão somente a riqueza do país com lealdade e princípios.

O que está errado em nosso país? Transcrevo as palavras da Professora de Filosofia e Mitologia grega da Escola Superior de Direito Constitucional ( Profa. Luciene Felix ), que em artigo à Revista Visão Jurídica n. 38 à pag. 74 diz:

“ Artimanha dos tiranos: bestializar seus súditos! Também como instrumentos de alienação, verdadeira mantenedora da tirania, a fim de adormecer o povo, súditos da escravidão, disponibilizam-se todo e qualquer meio de distração: drogas, tavernas, casas de prostituição, jogos, lutas públicas, fanfarras, enfim, toda sorte de iscas para o entorpecimento: novelas, caras , bumbuns, BBB e outros. Não há então necessidade de precaver-se contra o povo ignorante e miserável, fácil e bestialmente entretido e domesticado com tolices vãs: “ os tiranos romanos foram longe ( na política do pão e circo )...”

Temos mecanismos para pormos a casa em ordem. Se as pessoas escolhidas para gerir os bens que nos pertencem, não estão fazendo, devemos chamá-las para conversar. O silêncio e a aprovação tácita corrobora todos os atos quer seja da câmara, do senado ou da presidência da República.

Não somos funcionários, prestadores de serviços ou mendicantes do poder. Somos nós os detentores do poder e eles ( representantes ) os nossos serviçais.


Livingston Streck
( Bacharel em Direito )

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O HOMEM DUPLICADO

Análise sobre a leitura do livro


Acabo de ler o livro O homem duplicado de José Saramago, grande escritor ficcionista português, autor de vários clássicos como Ensaio sobre a cegueira, As intermitências da morte e tantos outros títulos. Saramago trabalha com uma literatura surrealista extremamente ficcional para, de forma análoga, nos trazer uma reflexão sobre a realidade. O homem duplicado fala de transferência, do auto abandono, da perda de identidade total sobre seus atos, dos excessos contidos no tudo e no nada. Em determinado momento o autor escreve: “ o melhor caminho para uma desculpabilização universal é chegar à conclusão de que, porque toda a gente tem culpas, ninguém é culpado, se calhar não há nada que possamos fazer, são os problemas do mundo, disse Tertuliano Máximo Afonso” personagem principal do livro. Num momento de crise política e moral em nosso país, é bem aplicável o discurso do personagem através do autor. Se o congresso nacional é corrupto e está afundado em lama é porque a sociedade não presta, é porque não prestamos.

O livro traz o relato de um professor de história que passando por uma crise pessoal e vivendo um tédio em decorrência de sua rotina, acaba, por sugestão de um amigo de trabalho, por assistir determinado filme sugerido pelo amigo. O mesmo vai até a locadora e pega o filme para assistir em casa. Vê o filme todo e o acha extremamente tedioso sem nada que viesse a acrescentar a sua vida. vai para a cama dormir mas não consegue pegar no sono. Derepente, num sobressalto, se dirige até a sala, pega a fita e se poe a assistir novamente o vídeo. Começa aqui o seu problema. Derepente ele se vê no filme através de Daniel Santa Clara, ator secundário do filme. São iguais, mesmo rosto, mesmo corpo e mesma voz. Tertuliano Máximo Afonso inicia seu desesperado intento de encontrar o seu igual.

O livro se desenrola numa insana busca de encontros, do outro e de sí mesmo, num emaranhando de oportunismos e das maledicências que surgem no homem quando encontram o terreno da moral estéril onde aflora vertiginosamente dentro do ser, o que há de pior em cada um. Em determinado momento o personagem Tertuliano diz: “ quando o Antonio Claro entrar amanhã em casa vai ter a maior dificuldades para explicar à mulher como foi que conseguiu dormir com ela e ao mesmo tempo estar a trabalhar fora da cidade, Não imaginei que fosses capaz de tanto, é um plano absolutamente diabólico, Humano, meu caro, simplesmente humano, o diabo não faz planos, aliás, se os homens fossem bons, ele nem existiria, “ ( grifo original do autor lembrando que José Saramago não costuma pontuar suas frases). Na guerra, os filhos da pátria, muitos de formação religiosa ortodoxa, se deixam levar pela irracionalidade e se entregam à pratica do estupro às mulheres do seu “inimigo”. Está a moral dentro ou fora do homem? Kant afirmou que a lei está dentro do homem. A moral está dentro do homem, basta ouvi-la.

A ficção de desenrola para um final surpreendente. Os dois personagens do livro iguais como se fossem gêmeos mas segundo o que eles mesmo disseram eram mais do que gêmeos pois eram idênticos até nas cicatrizes, um deles então afirmou: “ se somos iguais um de nós está sobrando então.”

Interessante literatura onde nós leitores-personagens atravessamos a história numa cumplicidade com todos os envolvidos. Ora pegamos a voz de um, ora a voz de outro. O leitor, ao ler o livro, não deixa de criar um teatro particular para dar vida ao texto. Todos os personagens borbulham dentro da gente enquanto o livro estiver aberto. Ao concluirmos a leitura fecha-se a cortina. A história precisa encontrar a realidade, precisa alcançar os fatos e a verdade. É o que tentei fazer com O homem duplicado. Inserir as minhas verdades na ficção. Inserir a ficção nas minhas verdades. Quem sabe poder ver a extensão da minha maldade. Nossas maldades que dormem profundamente no mais recôndito do ser. Que podem vir à tona quando encontram o terreno estéril da moral.


Livingston Streck

terça-feira, 21 de julho de 2009

O LEILÃO DA VIRGINDADE

Dizem que a verdadeira noticia é aquela que foge da sua normalidade. Um cachorro a abanar o rabo ou um elefante tomando água jamais serão notícia. Agora, um rabo a abanar um cachorro ou um elefante voando ai sim serão disputados como furo jornalístico e entupirão as primeiras páginas da mídia em geral.

Noticia extraído do site Yahoo notícias, 21/07/09, informa que uma mulher de 28 anos, equatoriana que mora em Valencia, na Espanha, está leiloando sua virgindade no intuito de obter recursos para custear um tratamento de saúde da sua mãe.

Alguns candidatos já se credenciaram conforme o jornal digital El Mundo onde os primeiros lances já foram propostos. O lance inicial foi estabelecido em 15.000 euros ( 21.000 dólares ) e a primeira oferta substancial foi de 2,3 milhões de euros ( 3,2 milhões de dólares rejeitado pela detentora da membrana virginal que recusou a oferta por que o interessado desejou o desmembramento da relação. Com receio de se apaixonar e vir a amar a leiloeira, impôs como clausula adicional, novos encontros e quem sabe um pedido de casamento.

Estabelece ela ainda em seu contrato que o vencedor deverá se abster das devidas preliminares, caricias, beijos na boca e outras atitudes que normalmente acompanham o devido ato. Num exercício de reflexão é possível imaginar o sublime ato que está a frente da existência e é a razão da proliferação da humanidade, ser desprovida de toda nossa engenhosidade romântica e erótica onde não cabem as flores, o vinho, os sais na banheira, a despudorada lingerie minúscula em preto ou vermelho, as cores mais adequadas ao ato, as velas a meia quase luz em sombra, a música sussurrada e instrumentalizada por um Kenny G, o olhar, o simples olhar do silencio mas em palavras. Não. Nada disso poderá compor o contrato do leilão da inflacionada membrana.

Posso imaginar então as partes ( o vencedor do leilão e a quase ex-virgem ) juntamente com seus advogados em uma sala discutindo as cláusulas do contrato. O advogado da equatoriana já com seu contrato redigido lendo as cláusulas uma a uma ao advogado e ao cliente:

Cláusula n. 1 – o fato deve se dar em ambiente que não propicie o erotismo de preferência em um quarto de paredes brancas com uma cama sóbria, simples sem odores ou perfumes que venham despertar qualquer atitude que invalide este contrato.

Cláusula n. 2 – estão proibidas palavras que insinuem o ato ser satisfatório, olhares que demorem mais do que 3 segundos, o toque das mãos em ambos os corpos exceto os acidentais provenientes da formação da posição única em que será realizado o ato.

Cláusula n. 3 – o felizardo vencedor do leilão terá 15 minutos para chegar ao ápice do ato ( ejacular de forma moderada sem estardalhaço devidamente composto do preservativo ), não havendo nenhuma chance de segunda tentativa se nos 15 minutos concedidos o cliente não obter o resultado. Será dado como finalizado e posto a termo o contrato ao término do tempo estabelecido.

Cláusula n. 4 – deverá o adquirente da membrana virginal rompê-lo com a maior suavidade possível, evitando todo o desconforto à adquirida sendo que a mesma poderá interromper o ato chamando a segurança que ficará a disposição da quase virgem se ela sofrer algum ato violento que venha a lhe proporcionar dor, sangramento proveniente de mau uso ou imperícia na execução do ato. Neste caso se dará como concluído o leilão.

Cláusula n. 5 – estão excluídas qualquer tentativa de toque nos seios, pressão clitoriana quer seja com a língua, dedos ou através do pênis. A penetração se dará de forma horizontal com o púbis de forma adequada a evitar que breve levitação venha a exercer pressão clitoriana provocando na leiloeira o mínimo desejo em atingir o orgasmo. Reiteramos que a proponente se dispôs a vender somente a membrana virginal e não o prazer sexual.

Cláusula n. 6 - ao término dos 15 minutos o adquirente se levantará e se dirigirá ao banheiro afim de se higienizar retirando-se logo a seguir para então deixar a agora não mais virgem poder enfim ser analisada por um médico de plantão que verificará se tudo está a contento na realização do seu ato.

Cláusula n. 7 – é terminantemente proibido enviar flores no dia seguinte, ligar para perguntar como passou a noite ou qualquer outro clichê muito comum quando se passa por experiências análogas. Lembramos ao adquirente que ele pagou pela virgindade e não pelo amor.

Ciente do conteúdo contratual assumo e subscrevo, etc ...

Se fosse eu um desses Sheikes das arábias a queimar dinheiro em barril de petróleo por não saber mais o que fazer com ele, compraria a virgindade desta tão necessitada equatoriana. Assinaria o contrato como se fosse um contrato de adesão sem questionar cláusula alguma. Me apresentaria no dia e hora combinados para a execução do contrato conforme as regras estabelecidas no quarto sóbrio escolhido pela distinta senhorita virgem. Ela se despiria enfim para a execução do ato o qual não lhe impediria. Ficaria sentado quem sabe num sofá ou cadeira que pudesse compor a mobília do quarto. Pediria gentilmente a ela que pusesse a roupa novamente e que burlaria algumas cláusulas do contrato. Diria a ela que a deixaria intacta com sua virgindade e que a mesma seria paga sem violá-la. Conversaríamos durante 15 minutos sobre algumas amenidades, sobre a vida, sobre flores, sobre poesia, sobre música etc e ao término do tempo lhe desejaria que sua mãe se recuperasse com o dinheiro obtido pelo contrato. Talvez ela perguntasse meio estupefata: mas você não quis minha virgindade? Eu lhe diria: eu poderia comprar sua virgindade sim, mas não creio que lhe compraria o amor, não creio que lhe compraria a vontade.

Livingston Streck

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A hora inútil

Neste momento da minha vida em que estou, segundo o Instituto Nacional de Seguridade Social ( INSS ), gozando de um período de incapacidade laborativa, portanto longe das responsabilidades da minha rotina, tenho observado e vivido algumas situações que num dia a dia não é possível presenciar.

Sentado à mesa passando o olho em alguns papéis, livros e revistas em busca de algo que pudesse me absorver e captar minha concentração, deparei-me com o relógio marcando catorze horas e cinqüenta e cinco minutos. Fiquei observando o passar do tempo durante os cinco minutos seguintes quando enfim o relógio bateu as quinze horas em ponto.

Parei de fazer qualquer coisa neste momento e fixei-me neste horário cravado no relógio de parede. O que se pode fazer exatamente as quinze horas de um dia? Almocei três horas atrás, acompanhei os noticiários da TV, informei-me das barbaridades cotidianas como prato de sobremesa. Vou fazer meu lanche três ou quatro horas depois das quinze horas provavelmente vendo as mesmas barbaridades repetidas do meio dia pois a sociedade precisa ser martelada todos os dias com estas informações. Este circo de horror precisa estar no inconsciente coletivo como a um vicio afim de atender os reclamos do mercado que tem a mídia como o mais fiel colaborador.

Mas na realidade quero mesmo é falar deste horário marcado no meu relógio. Se estivesse na minha lide diária, no meu trabalho, não prestaria atenção neste horário. Estaria envolto em problemas, falando com algum cliente, cobrando alguma entrega que deveria ter chegado, atendendo o gerente do banco, etc. Mas não. Estou laborativamente incapacitado. Estou momentaneamente inutilizado pelos fatos da vida. E esta incapacitação me propicia ao encontro da hora inútil.

Como é inútil este horário. Distante das coisas boas e ruins do dia. Presumo que neste horário nem se mata e nem se morre. Percebo também que os conflitos, os assaltos e os acidentes se dão no começo da noite. A televisão tem farta matéria prima para vender seus produtos a custa do sangue dos desvalidos, bandidos e inocentes por volta das dezenove horas. Mas as quinze horas, que hora inútil. Tenho a impressão de que nem o ar circula neste horário. A tarde espreguiça-se sobre si mesma numa letargia total.

Alguns autores já trataram determinadas horas de forma folclórica. Rubem Braga em uma de suas crônicas dizia que a meia noite era a hora do capeta. Folclores a parte o que posso afirmar é que senti na pele as quinze horas. A hora inútil.

Livingston Streck

sábado, 27 de junho de 2009

OCASO DE UMA FANTASIA


O mundo chora a morte de Michael Jackson. Poucas pessoas no mundo hoje talvez não tenham ouvido alguma canção ou fato alusivo a este personagem. O fato é que morreu o homem e com ele se esvai seu personagem, suas fantasias, o Peter Pan dele mesmo. Assim como o personagem Peter Pan criado por James Matthew Barrie, jornalista, dramaturgo e escritor de origem escocesa, que não desejava crescer e preferia ficar brincando eternamente com as crianças na terra do nunca, Michael Jackson incorporou este personagem até as últimas consequencias.

A despeito de todas as excentricidades e fantasias deste cantor, comum a tantos outros que tiveram um fim também menos glorioso e digno, é notório perceber em relação ao Michael Jackson uma certa vitimização do barbarismo mercadológico posto a serviço das mentes doentias do século XX e XXI. Ele não se fez sozinho. Um grande aparato da indústria foi posto a seu serviço. A indústria médica, a indústria da fantasia, a indústria imobiliária, a indústria fonográfica e midiática se locupletaram e perderam seu melhor cliente. Todos foram seus melhores e atenciosos fornecedores prontos a atender o mais excentrico pedido se fosse necessário. Um dia MJ acordou, se olhou no espelho e decidiu abdicar da sua cor e raça. Pronto. A indústria da cosmetologia e da plástica já estavam a sua disposição com o orçamento e garantia. Outro dia mister MJ acorda e deseja morar na terra do nunca. A indústria imobiliária ja estava a sua disposicao com projeto e orçamentos prontos da terra do nunca.

Michael Jackon morre quase a beira do ostracismo afundado em uma dívida gigantesca proporcional ao que ele já ganhou em tempos áureos. Não se falará que ele é um produto da revolução industrial. Não se falará que ele foi uma máquina experimental posta a serviço do desejo monetário. Sua dança, seus passinhos flutuantes e seus rodopios inocentes ou nem tanto ainda repercutirão no imaginário daqueles que não conseguem dar um sentido próprio e original para as próprias vidas. O trágico do ser humano é não poder dar originalidade as suas vidas. Só se vive a base de elementos fantasiosos fabricados pela mídia e empurrrados inconciente a baixo. Ao ligarmos a tv só vemos pessoas repetindo os já cansados e estupefatos trejeitos dos seus ídolos.

Há uma síndrome de Peter Pan coletivo em nossa sociedade. Há uma necessidade de manter o público consumidor infantilizado para que o mercado não sofra os solavancos da razão. Há uma necessidade de ídolos, ícones, referências. Há uma necessidade de não sermos nós mesmos. As custas de não sermos nós mesmos autenticamente é que consumimos nossos ídolos e todos os produtos que o mercado nos oferece. Inocentemente compramos seus cds, apreciamos sua música, vamos ao seu show. E então acabamos sendo partícipes e financiadores das excentricidades desses pobres seres.

Não morreu um ser humano em decorrencia da normalidade da vida. Morreu a fantasia, morreu a vaidade, morreu o mundo onírico de Micheal Jackson. A orfandade deste ídolo se manterá até o mercado estabelecer o seu substituto. E o mundo continuará na sua necessidade de viver a vida onírica do outro. É proibido ser autentico. É proibido não ter idolo e é proibido não pertencer a uma tribo. Até quando a massa humana precisará recorrer a fantasia para buscar o seu sentido? Até quando a massa humana precisará morrer junto com seus idolos e fantasias?
Este buraco existencial do ser humano não será a insistencia em buscar em sí mesmo a solucão enigmática do problema humano? Em negar a solução do que está fora de nós?

Livingston Streck