sábado, 5 de março de 2011

DEUS EXISTE?


O grande dilema humano talvez seja crer ou não na existência de um Deus criador. É recorrente a pergunta e já ouvi mais de uma vez que, se Deus existe, por que ele não aparece entre nós através de uma forma humana ou divina?

O grande líder Moisés do velho testamento teve a curiosidade e a ousadia de querer ver o rosto de Deus e segundo o relato da história bíblica, Deus se permitiu aparecer de costas, pois se aparecesse de frente, Moisés morreria na hora.

Jó, no seu infortúnio e resignação, chegou a dizer que antes ele apenas tinha ouvido falar de Deus mas agora ele o via.

Um dia perguntaram a mim se eu acreditava na existência de Deus e quais argumentos eu teria para me convencer de que Deus existe.

Após pensar alguns instantes disse que Deus não era uma teoria a ser explicada. Deus, no meu entendimento, é uma experiência pessoal e intransferível a ser vivenciada. Há pessoas que vêem Deus através de um milagre. Outros o vêem na natureza. Já vi Deus numa flor e também nos gatinhos. Deus pôs todo o seu humor nos gatos.

Deus é uma sensação de bem-estar espiritual; é uma sensação de bem-estar material; Deus é suprimento; é afago; Deus é uma sensação de paz, de refúgio e de completude.

Deus é a infinitude da natureza que nossos olhos captam superficialmente. Deus é uma estrela que olha e vela. Deus é um arrepio e um sorriso. É uma lágrima de conforto e saudade.

Deus é um leito de nuvens brancas que vemos pela janela do avião. Deus é um sustentar da alma e do espírito.

Deus é um rosto anônimo que trafega. Deus está na semelhança do homem mais comum e insignificante.

Deus é um diálogo interior. Um sussurro, uma brisa, um filete ardente de sol.

Deus não é uma propriedade, nem é medo, nem é luxo.

Deus é uma essência de Justiça e uma experiência pessoal que só existe se cada um deixar ele viver dentro de sí.

Caso contrário, Deus não existe.

Livingston Streck

domingo, 30 de janeiro de 2011

O GRITO DE HABACUQUE


Quando vemos o mundo se esfacelando em terror e violência, quando a natureza despeja sua fúria e destrói milhares de pessoas, surge uma pergunta básica diante da estupefação humana. Onde está Deus?

Um profeta-filósofo bíblico chamado Habacuque também proferiu esta mesma pergunta mas de forma bem mais ousada. Bradou ele o seguinte: " Até quando clamarei, e não escutarás, Senhor? Ou gritarei a ti: Violência! E não salvarás? " Habacuque 1: 2

É como se hoje gritassemos a Deus cobrando-o de tanta violência, miséria e fome no mundo.

Habacuque, diante da opressão do povo de Judá, não entendeu por que Deus permitiu que um povo escolhido por ele agisse com tanta opressão e injustiça em relação ao seu povo.

Deus então não deixou o ousado profeta sem resposta. Disse a ele que os Caldeus, considerado à epoca um povo bárbaro e feroz, que com sua permissão, iria destruir o povo de Judá e toda a sua injustiça.

Habacuque acha pesado demais a solução de Deus para os problemas levantados por ele. Esperava uma solução mais leve do que ver seu povo sendo trucidado pelos babilônios. Mas reconhece que no final haveria justiça na sua reinvidicação.

Ninguém em sã consciência acha que o mundo terá algum jeito. Tudo está de mal a pior numa crescente decadência humana, moral, espiritual e material.

Famílias inteiras choram seus mortos, a perda de suas casas, seus objetos e a fome em muitos lugares é devastadora. Na africa, a cada 5 segundos morre uma criança de fome.

Os pais do Alexandre, um jovem de apenas 28 anos, o estão enterrando hoje em consequencia de um cancer devastador. Quem sabe devem estar se perguntado aos berros e em lágrimas onde está Deus? Por que um jovem engenheiro com uma vida longa pela frente, que poderia dar netos, dividir muitas alegrias e vitórias, está descendo a sepultura diante da estupidez da morte?

Tal como Habacuque eles também tem o direito de bradarem a Deus a sua dor. Podem perguntar a Deus até quando isso ainda será permitido.

Numa das respostas que Deus concede ao profeta ele diz que " o justo viverá pela fé ". A fé é a resposta para o absurdo e a falta de lógica humana. Por isso que a solução do mundo não será pelo caminho da lógica mas pelo absurdo de Deus. Há que se ter fé para sobreviver.

Habacuque nos dá uma lição de resignação no seu livro. Afronta Deus, discute com Deus, se impacienta com Deus mas o ouve. E num tom de humildade diz: " Eu me colocarei sobre a minha torre de vigia; ficarei sobre a fortaleza e vigiarei, para ver o que ele me dirá e o que terei como resposta à minha queixa." Habacuque 2: 2

Podemos não ter respostas para muitas coisas hoje. Podemos chorar com a nossa dor ou a dor alheia pelas situações que nos acometem. Mas creio que pela fé nada fica ou ficará sem resposta.

E concluo com as palavras de Habacuque quando Deus por fim respondeu as suas indignações: " Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas videiras; ainda que o produto da oliveira falhe, e os campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado do estábulo e não haja gado nos currais; mesmo assim, me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação." Habacuque 3:17,18


Livingston Streck

sábado, 15 de janeiro de 2011

OS MORTOS DO RIO DE JANEIRO E O VESÚVIO DE POMPÉIA



Salvo engano, ano passado houve a tragédia de Angra dos Reis onde a chuva ceifou a vida de centenas de pessoas. Hoje os mortos estão na serra carioca onde já morreram por volta de 600 pessoas, tragédia esta considerada a pior de todos os tempos no país.

A tragédia que ora se repete ocorrerá provalvemente nas chuvas de janeiro do ano que vem. Novas mortes, novos deslizamentos e novos soterramentos. Isto tudo por que há um roteiro escrito da tragédia.

O descaso do poder público com as populações que vivem em áreas de risco, a falta de uma cultura de prevenção e evacuação da população antecipando-se às chuvas e possíveis deslizamentos, são os elementos necessários para o cenário trágico da dor.

Os vivos choram os seus mortos na tv. O espetáculo da barbárie se presta a alavancar audiência como a um Big Brother do terror.

A chuva torrencial que caiu no Rio de Janeiro me fez lembrar das cinzas do Vesúvio em Pompéia. O vulcão do Rio de Janeiro eclodiu do céu ao contrário de Pompéia.

No dia 24 de agosto de 79 d.C., os habitantes de Pompéia foram surprendidos quase que instantaneamente pelas cinzas do Vesúvio quando fugiam. Diz a historia que a maioria conseguiu escapar mas os que morreram ficaram petrificados.

Um relato interessante descoberto pelos arqueólogos diz que os habitantes que morreram ao tentar fugir, ficaram solidificados com os objetos nas mãos durante a fuga. Puseram os objetos em primeiro plano e suas vidas em segundo.

Os mortos do Rio de Janeiro temiam deixar suas casas e objetos. Levaram anos para adquirir suas coisas e não suportaram ter que deixar suas casas para salvarem suas vidas.

Há um Vesúvio invisivel que se esconde nas nuvens do nosso país. Cada ano uma Pompéia renasce nas serras, favelas e periferia das grandes cidades.

O que difere o Vesúvio de Pompéia com a serra do Rio de Janeiro é que os habitantes de Pompéia tinham conhecimento de que as lavas do vulcão estavam extintas. Não sabiam que corriam perigo.

A tragédia do Rio de Janeiro é recorrente. Sabe-se com um ano de antecedencia que pessoas irão morrer soterradas.

O nosso Vesúvio é feito de descaso político, abandono social e ocupação desordenada do solo.

Enquanto nos preparamos para o próximo carnaval as lavas da tragédia brasileira vão se recompondo para o próximo ano.

Livingston Streck

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

ABRAÃO, A FÉ E A LOUCURA

A história bíblica de Abraão é uma das mais contundentes para mim quando colocamos o relato dentro da esfera humana e pensamos na sua contemporaneidade.

Tudo em Abraão foge a lógica humana. Já em idade avançada, tanto ele como sua esposa Sara, conformam-se em não poder ter filhos pois Sara é estéril.

Mas eis que Deus, através da palavra, se manifesta a Abraão dizendo: " olha agora para o céu e conta as estrelas, se é que consegue contá-las; e acrescentou: Assim será a tua descendência." ( Gen. 15:5 )

Abraão se vê diante da loucura e da impossibilidade humana mas mesmo assim acabou acreditando na viabilidade da promessa.

O patriarca bíblico é conhecido como o pai da fé, o homem de sujeição incondicional que se permitiu ultrapassar toda a lógica humana.

Era a fé de Abraão um sentimento inerente a sua personalidade? Não, Abraão era lógico, racional e prático. A fé não lhe era muito conhecida. Abraão era fraco e mentiroso.

Dois episódios distintos comprovam a sua falta de fé e mentira. Quando Deus promete dar a ele uma descendência, era através de um filho seu gerado por sua mulher. Mas tanto Sara e Abraão não estavam certos de como esse filho viria em tão adiantada idade que resolveram a questão usando a sua serva que acabou lhe gerando um filho chamado Ismael.

Um segundo episódio aconteceu quando Abraão estava em viagem com sua família. Sua mulher, por ser tão bela, acabou sendo alvo do rei Abimeleque que a tomou para sí pois Abraão havia mentido dizendo que Sara era sua irmã pois temeu ser escravo do rei se tivesse dito que ela era sua mulher. ( Gen.20:2 )

Esta história de cunho contundente, nos mostra o processo de depuração do ser humano. É possível com este aprendizado, acreditar que se pode tirar o melhor do pior. Um homem fraco, sem fé e vacilante, recebe da história a alcunha de pai da fé.

Quando Deus pede que ele sacrifique seu único filho no monte Moriá, Abraão está depurado. Obedece com temor e tremor segundo as palavras do filosófo Sören Kierkegaard.

Abraão dá ao mundo a lição de que não há lógica na fé mas solução e mudança nos problemas humanos a despeito de nossa tão limitada racionalidade.

Livingston Streck

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

VIDA BREVE

Para que viemos ao mundo? Alguém já se perguntou por que nasceu? Qual o objetivo e qual propósito de estarmos vivendo e interagindo com nosso próximo?

A medida que vamos tomando consciencia do existir, construimos nossa realidade e nos propomos a adiar nosso fim através dos sonhos e desejos.

Elencamos uma lista de desejos e aos poucos vamos concretizando, construindo, nos aprimorando e sendo bem sucedidos nas lutas e realizações.

Alexandre também conquistou seus sonhos e desejos. Formou-se em engenharia quimica, estudou várias línguas, conheceu o mundo a trabalho e tinha uma fome enorme de viver e conquistar.

Até o dia em que sua voz apareceu afônica e o médico diagnosticou um estresse decorrente do trabalho.

Ledo engano. Diagnóstico errado. Após novos exames foi lhe detectado um cancêr no pulmão em metástase.

Alexandre tem apenas 28 anos de idade. Encontra-se na UTI e respira por aparelhos. Seu corpo luta intensamente pela vida mesmo em estado de coma. Resiste a morte a cada dia. A sua vontade de viver está tão impregnada em suas células que elas se recusam morrer e encerrar a vida.

Alexandre não sairá mais da UTI para a vida, para os seus sonhos e atribuições. Infelizmente sua vida está sendo concluida brevemente.

Filho único, deixará seus pais órfãos. Sua mãe não tem coragem de vê-lo na UTI. Não admite perder seu filho tão jovem. Fugir da realidade é onde ela busca forças para tornar a vida um mero pesadelo. Espera acordar e ver seu filho entrando pela porta sorridente.

A vida é silenciosa e guarda em cada um o seu segredo. Seu fim nunca é revelado. O que ela pede é que cada um valorize o seu momento. A consciencia de viver o seu melhor.

Para a morte não interessa mais o sorriso, a flor e o perdão.

Ernesto Sábato, escritor argentino diz em uma frase que: " a vida é tão curta e o ofício de viver tão dificil que, quando começamos a aprendê-lo, temos de morrer."

Realmente a vida é curta como disse Sábato, mas cabe nela uma centelha da eternidade.

Livingston Streck

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MULHER


A mulher não é um ser, é um estado de espírito. Não é um ser material mas um sentimento envolta em pele. Quando o meu dia está bem e feliz é a mulher e quando estou mal e o dia negro é a mulher.

Quando ela chega em casa e entrelaça seus beijos nos meus e os seus olhos se misturam aos meus, o paraíso verdejante repleto de anjos tocando lira se instala dentro de mim. Olho-a demoradamente como se estivesse lendo o final de uma história de amor num livro.

Dizem que o amor é cego e faço questão de cegar-me sim diante do amor. É quando o tato das minhas mãos vão lendo em braile as linhas do seu corpo ainda vestido. Aquela segunda pele a proteger-lhe o corpo. Cada dia vou descobrindo uma nova nuance, uma nova saliência, uma sutil entradinha próxima a axila, o corredor da coluna, se profundo ou raso.

Volto aos olhos e vejo aquele olhar de bandeira encravada no topo de uma montanha inexplorada. Gosto do olhar da mulher pois é um olhar de decisão. É um olhar de propriedade. A mulher olha para o seu amor com um olhar de escritura e de chave. Sabe ser dona do seu amado.

A mulher com seu olhar sabe pedir o que quer. Quando deseja ser amada sabe apontar o caminho da cama.

E quando dorme a mulher é outro espetáculo. Aquele ressonar baixo e a capacidade de dormir com a cabeça para o lado como se, mesmo dormindo, estivesse preocupada em saber se tudo está em seu devido lugar.

E não há coisa melhor neste mundo do que dormir com o braço debaixo da cabeça da mulher e com os dedos entrelaçados como dois namorados em uma praça. Mesmo dormindo a mulher aperta os dedos e puxa o seu amor para perto sem saber, eu juro.

Mistérios dessa mulher que acredito ser um estado de espírito, uma centelha de Deus alastrada no mundo através das mulheres.


Livingston Streck

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

AMOR E MORTE

É recorrente na mídia, noticia de alguém inconformado com o fim do relacionamento querendo matar o seu objeto de amor. Ontem, mais um caso ocupava as fontes de informação sobre um homem que fez sua mulher de refém em Araçatuba pois não aceitava o fim da união. Um trecho da noticia dizia o seguinte:

“Portando uma arma de fogo e duas garrafas pet com gasolina, Oliveira, que estaria inconformado com o fim da união do casal, ameaçou colocar fogo no local e matar Márcia.” Yahoo noticias, 02/12/10.


Lendo esta noticia refleti o quão decadente anda as agruras do amor e do abandono em nossos dias. Como tem faltado poesia e glamour na tragédia. Sendo assim, tive que me socorrer de Tristão e Isolda para poetizar a tragédia.

Foi então que busquei as últimas palavras de Tristão e Isolda em seu trágico desfecho. Diz Isolda:

“ A morte não é nada para mim; pois se Deus o quer, aceito-a; mas, amigo, quando o souberdes, morrereis também! Nosso amor é de tal modo, que não podereis morrer sem mim, nem eu sem vós. Vejo vossa morte diante de mim, ao mesmo tempo a minha. Ah, amigo, falhou o meu desejo: era ele de morrer em vossos braços, de ser sepultada em vosso esquife; mas assim não quis Deus. Vou morrer só, e sem vós desaparecer no mar. Talvez nem saibais de minha morte, esperando que eu chegue. Se Deus quiser, ficarei curado. Talvez, após mim, iríeis amar outra mulher, amareis Isolda das Mãos Alvas! Não sei o que será de vós, amigo, ou que vos cure, ou ambos morramos, da mesma agonia! “

Ao que respondeu Tristão:

“ - Não posso mais reter a minha vida. Disse três vezes: “ Isolda, minha amiga.” Na quarta vez entregou a alma a Deus. “

E por fim Isolda:

“ Voltou-se para o Oriente e orou a Deus. Depois, descobriu um pouco o corpo, estendeu-se junto dele. Beijou-lhe a boca e a face, e abraçou-o, apertado: corpo contra o corpo, boca contra boca, e morreu com ele, pela morte de seu amigo.” Tristão e Isolda, págs 131, 132 e 133.

O amor deve ter essa beleza, esse pacto. A sua impossibilidade deve ser dividida com a mesma dor. Quão arcaico e primitivo é a obsessão de um ser ao outro. Não suportar o fim do amor ou o seu abandono.

Se alguém deseja matar o outro por que não suporta ser abandonado é por que amor nunca houve. Se houve amor e acabou, a pessoa abandonada não vê razão de continuar a viver e suicida-se com glamour e poesia.

É isso que fez Werther na impossibilidade de amar sua prima Lotte. É de Werther algumas frases esparsas construídas genialmente por Goeth no clássico homônimo.

Diz ele:

“"É como se um véu tivesse rasgado diante de minha alma e o espetáculo da vida infinita se transformasse em um túmulo dentro de mim".

"Só vejo um final para esta miséria: o túmulo"

"Oh! Cem vezes já peguei do punhal para livrar meu coração do peso que esmaga"


E diante da impossibilidade de amar, Werther dá fim a sua vida.

Mata-se por que se coisifica pessoas. Mata-se por que pessoas se tornam propriedades do egoísmo do outro. Mata-se por que se trancafia e se asfixia o amor que é tão livre como o vento.

Livingston Streck